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A INCORRUPTÍVEL LEVEZA DE KNOP

 

Texto de Henrique Guerra*


Chega a ser irônico: vem de Brasília uma das poesias mais bem trabalhadas e, ao mesmo tempo, mais puras de hoje. É na capital brasileira que a baiana-cosmopolita Márcia Knop dedilha o seu introspectivo e delicado alaúde, para tocar o âmago do leitor. É como se a poeta, inquieta com o que acontece ao redor, introvertesse o seu olhar e buscasse algo pulsante, limpo, saudável, algo que oxigenasse e tocasse o coração.


Não apenas tocar o coração do leitor é o desiderato de Coração de astronauta, o segundo livro da poetisa, que lançou Conta outra em 2010. Vívidos e impetuosos, os versos da estreia lidavam com temas palpáveis, como a maternidade, mas já mostravam um talento sustentável, um irresistível “jeito para a coisa”.
Anos depois, sua poesia cresceu, evoluiu, amadureceu? Talvez fosse um clichê afirmar isso, o fato é que agora quem tem o prazer de correr os olhos pelos tamborilantes versos de Coração de astronauta termina o poema e se pergunta, intrigado: qual é o assunto deste poema? De que na verdade o eu lírico está falando? É na polissemia que reside a chave dessas musicais palavras escolhidas a dedo. Elas encantam, intrigam.


Exemplo dessa multiplicidade semântica? É só abrir ao acaso o livro de Knop.
Qual é o tema, por exemplo, em “Do ofício de tradutor”? Os dilemas tradutórios ou a saudade que a tradutora deveras sente?
E o que dizer das sensações provocadas por “O trem nosso de cada dia”? Ecos de Simenon e seu hermético homem que via o trem passar contrastam com a simples vontade de viajar, mudar de ares. Qual é o tema aqui? A incapacidade de mudar os rumos de nossas vidas, ou o impulso de fazer um turismo infinito por lugares físicos ou metafísicos?


E o poemeto da página 17 é sobre filosofia ou paixão? Com o rigor de uma equação matemática, em treze pequenos versos a poeta define a agonia de muita gente, que deseja loucamente atravessar a rua, mas não tem a coragem de arriscar.
A brincadeira que eu fiz, o leitor pode fazer também. Não há necessidade de ler os poemas na sequência. Basta abrir aleatoriamente o livro e sorver esses drops poéticos, e abrir um sorriso, e meditar, e deixar a mente vagar...
Knop canta porque o instante existe. Ela não é alegre nem triste. É poeta.
Sua poesia é leve como um título de Kundera, é profunda e simples como a quadra de Tobias Barreto, que muito bem poderia ser a epígrafe deste livro:
O coração também é um metafísico:
Estremece por formas invisíveis,
Anda a sonhar uns mundos encantados,
E a querer umas coisas impossíveis...

Em tempo: a obra já foi lançada em Brasília e no começo de 2018 será a vez de Salvador:

 

 

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